Mas após assistir ao Timbuktu, filme dirigido por Abderrahmane Sissako, percebi que não poderia guardar para mim todas as impressões, emoções e dúvidas que surgiram em minha cabeça após os créditos começarem a rolar.
Podia começar por muitos lugares, mas acho que um resuminho da história vem bem a calhar para quem quer convencer o outro a assistir a um filme: Timbuktu não é a história de ninguém, mas é a história de todo mundo. É a história de milhares de pessoas que vêm sendo submetidas aos conflitos desencadeados pela guerra religiosa que avassala especialmente a África Ocidental. É a história particular das pessoas que vivem na cidade de mesmo nome, onde está erguida uma das mais antigas (se não a mais antiga) Universidades do Mundo. É a história da luta do islã contra o islã, de grupos pertencentes ao Estado Islâmico que, em nome de uma suposta "guerra santa" (jihad) atropelam os quereres e os viveres alheios. Em nome de um Deus e de uma palavra que nem mesmo é consenso entre os islâmicos, os integrantes desse grupo obrigam mulheres a usarem véus cobrindo cabelos e pescoço, e também a cobrirem suas mãos com luvas, proíbem o futebol e até mesmo a reproduzirem e/ou cantarem qualquer tipo de música.
Tá, Bárbara, isso eu já vi no Jornal Nacional, qual a novidade do filme?
A novidade, ou melhor, o diferencial desse filme é a poesia que ele insere na leitura desse lugar tão peculiar, nesse contexto tão bruto e avassalador. Para além da fotografia (que é espetacular), o diretor teve a sensibilidade de explorar as muitas matizes e sutilezas das relações entre as pessoas que vivenciam esse contexto. A dualidade das pessoas que proíbem o futebol mas discutem se Messi ou Zidane são melhores, a avassaladora beleza do jogo de futebol sem bola, a profundidade da música cantada em um quarto escondido... É difícil elencar quantas analogias e reflexões a história propõe.
Eu gostaria apenas de destacar uma, para não esgotar a novidade da ida ao cinema: a dificuldade de comunicação. O Mali é um país que surgiu após a colonização francesa na África Ocidental (século XIX), mas que abriga em seu interior diferentes etnias, dentre as quais se destacam os Bambara, os Fula e os Tuaregue, povo nômade do norte da África que foram responsáveis pela introdução do islamismo na região. Cada uma dessas etnias possui sua própria língua, somada ao francês do colonizador e ao inglês de alguns visitantes. Muitas cenas do filme destacam diálogos que precisam ser mediados por tradutores, sempre em situações de conflito: uma analogia muito bela para a falta de comunicação interior, para a falta de alteridade.
Em resumo: tudo o que posso fazer é recomendar a ida ao cinema, e adicionalmente recomendar que seja levado um bom estoque de lenços. Demorei pelo menos cinco minutos após o final do filme para conseguir parar de chorar. De longe, um dos melhores filmes que já assisti!
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